urubusservando a situação
9.12.05
 
A seguir, em todos os batcanais: "Lula, o melhor e mais honesto governo da história do Brasil"
Redes pedem financiamento para TV digital

Daniel castro
Colunista da Folha

Representantes das principais redes do país se reuniram anteontem com o ministro das Comunicações, Hélio Costa, para apresentar suas posições sobre o sistema de TV digital a ser adotado pelo Brasil, decisão que será anunciada até fevereiro. Os radiodifusores também tiveram um breve encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Planalto. A principal novidade é a reivindicação, por parte das redes, da abertura de uma linha de financiamento no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a compra, a juros menores que os de mercado, de transmissores digitais. As TVs também pediram benefício fiscal para importarem câmeras e equipamentos de estúdios adequados à nova tecnologia. As emissoras argumentam que, sem o apoio do BNDES, não têm como implantar a TV digital no país. Estima-se que todas as emissoras, juntas, terão que investir, em até 15 anos, cerca de US$ 10 bilhões para migrarem da tecnologia analógica para a digital. Segundo a assessoria de Costa, o ministro se comprometeu a defender a abertura de linha de crédito no BNDES tanto para emissoras quanto para fabricantes de televisores, mas exige como contrapartida canais para educação à distância. Costa, de acordo com sua assessoria, defende também crédito barato para o telespectador comprar caixas decodificadoras e televisores digitais.
5.12.05
 
Coluna "Coisas da Política", no Jornal do Brasil de hoje
A perfeição do mundo

A bancada dos pecuaristas conseguiu aprovar, preliminarmente, lei que considera crime hediondo a invasão de terras, e ressurge, no Rio, a pregação aberta do fascismo. Muitos dos atuais proprietários de terras, se a lei que propõem fosse aprovada e retroativa, estariam sujeitos a seu rigor: suas extensas glebas foram griladas de posseiros e de pequenos proprietários legais, a tiros e fogo – ou obtidas mediante fraude cartorial. Como ocorre agora no Pará, o problema fundiário é dos que mais perturbam o exame ético da História. Sempre houve, em todas as sociedades, revisões periódicas da posse da terra, com reformas agrárias, algumas anteriores à era cristã.Umadas mais inteligentes redistribuições de terra foi a promovida por Pompeu, aos piratas do Mediterrâneo, depois de derrotá-los com as armas. Ao narrar o episódio, Plutarco atribui ao general raciocínio político ainda válido: “Assim ele refletiu que o homem não é, nem se torna, selvagem ou anti- social por natureza, mas se transforma pela inatural prática do vício (ou pela necessidade) e pode ser domado mediante novos hábitos e mudança de vida e de ambiente (...). Decidiu, portanto, transferir os piratas do mar para a terra firme e lhes dar a oportunidade de vida civilizada, fazendo-os acostumar-se a viver na cidade e a cultivar os campos.” (Plutarco, Pompeius, pág. 28).

A diferença entre a Roma de Pompeu e o Brasil é que os necessitados não se encontram nos mares, mas dentro das cidades: o que o Estado devia fazer, faz o MST, ao aliviar as pressões sociais e acenar com a possibilidade de “novos hábitos, mudança de vida e de ambiente”. Pompeu, que, no mandato, exercia plena jurisdição sobre a faixa litorânea de 80 quilômetros terra a dentro, agiu manu militari para realizar a reforma agrária necessária, distribuindo glebas a seis mil prisioneiros.

Os pequenos narcotraficantes são os “piratas” de hoje, mas os armadores de seus negócios não vivem nas favelas. Provavelmente muitos deles são como aqueles pecuaristas goianos, envolvidos no tráfico de cocaína embalada em vísceras bovinas. Ou como os que estão violando os compromissos internacionais do Brasil e exportando carne de regiões vedadas ao comércio com a União Européia.

Os novos herdeiros de Plínio Salgado revelam a desilusão juvenil com a política. Sempre retornamos ao ponto fundamental, que é o da formação ética da juventude. Os preconceitos são resultados de crenças e costumes arraigados na sociedade e não basta suprimi-los por decretos e pela linguagem “politicamente correta”. Como, no entanto, exigir formação ética dos jovens, se nem mesmo lhes podemos oferecer educação básica que preste? Os meninos integralistas do Rio não sabem exatamente o que foi o fascismo, que pretendia a substituição da pátria pelo “estado orgânico” e a submissão de todos os povos ao Führer. Eles se inquietam, naturalmente, pela falência do Estado e se nutrem dos preconceitos contra o homossexualismo e o modo livre de viver dos companheiros de geração. Sonham, talvez, com um mundo de pessoas perfeitas, como sonhavam os nazistas, que pretendiam acabar com os “inúteis e incapazes” – e com todos os não arianos, todos os mestiços. Não é de se espantar que pensem assim.

De um leitor que não se identifica senão pelo endereço eletrônico (pf@ibge.gov.br), recebi a seguinte mensagem (textualmente como me foi enviada), a propósito de minha coluna de 30 de novembro, “Muralhas inúteis”: “v.s. prima pela miopia, mas hoje conseguiu se superar. raras oportunidades tive de ler tolice tao rotunda. se há uma coisa q a economia hoje prescinde é mao de obra SEM QUALIFICACAO. foi-se o tempo em q ia-se buscar escravos na africa,hj nao há mais o q fazer com eles. o capital a cada dia mais produz SOZINHO, alias tecnologia existe para libertar o homem do trepalium. e a unica saida é NASCER MENOS, pois o planeta nao suporta 6 bilhoes, sendo aí uns 5,5 de mendigos inuteis.”

Entre esses estão imigrantes bolivianos, que trabalham 18 horas por dia nas manufaturas clandestinas de São Paulo e ali vivem em cárceres privados.

Quem fala em nascer menos, fala naturalmente em eliminar mais.
19.11.05
 
Eu devo ter parafusos a menos, mesmo. Tudo o que consigo ver é que, sim, o mundo é uma merda, os seres humanos são desprezíveis, só conseguem ver a vida a partir de sua própria felicidade (ou conforto) pessoal, mas vejo que o ser humano é capaz de refletir, de raciocinar e construir as coisas de acordo com as conclusões racionais às quais chegou.

Até onde sei, a maioria de nós já chegou à conclusão de que algo muito equivocado está acontecendo com o planeta, e que nosso estilo de vida está matando a esperança de futuro (e de presente da maioria da população). O caso é que parece que quase todo mundo - inclusive quem se fode com isso - caiu no conto escroto da "natureza humana". Como se a natureza humana não fosse algo que englobasse desde "extermínio em massa" e "egoísmo profundo" até "altruísmo" e "sociabilidade".

A questão é que características dessa natureza a gente escolhe pra desenvolver.

Mas isso não é decisão individual. É uma decisão que depende da maneira como nos organizamos socialmente.

Marx já dizia, um tempinho atrás, que o capitalismo geraria individualismo. O que quero construir é outra coisa, que desenvolva outros valores - tão parte da "natureza humana" quando este individualismo da era vigente.
31.10.05
 
Antônio José dos Santos? PRESENTE!!!
Seu Antônio José dos Santos tinha 50 anos de agreste e muito pouco medo no espinhaço. Conhecia cada pedaço dessa montanhosa área de transição entre o verde e o sertão. Tanto, que se tornara olheiro do MST – movimento pelo qual lutou mais de década.

Onde tivesse, no agreste, uma fazenda improdutiva e boa pra produção, tava seu Antônio de olho, sugerindo o lugar como provável área pra Reforma Agrária. Não são poucos os hoje assentamentos que viraram acampamentos por conta do olheiro – também não podia ser pequeno o número de inimigos latifundiários acumulados na luta.

Mas seu Antônio era guerreiro e guerreiros não temem o inimigo – ao contrário: preferem que eles se declarem, pra saber quem são.

Cinco anos atrás, resolveu também ele acampar, ganhar seu pedaço de terra. Escolheu Tacaimbó e, junto com outras 42 famílias, ocupou a fazenda Maiada dos Cavalos.

A novidade vermelha e petulante desagradou o poder local. Na cidade, eram olhados como marginais pelos mais ricos, e sob curiosidade pelos mais pobres. Com o tempo, foram conquistando o respeito destes e o ódio daqueles.

Nos bares e praças da cidade, o latifúndio local ameaçava constantemente os acampados, dando sempre de cara com Seu Antônio – que não tinha porque correr com medo, certo?

A ameaça era clara e dizia que Tacaimbó não era terra pra vagabundo. Dizia ainda que era melhor os sem terra irem embora, porque se conseguissem a terra de alguém, ali, “sofreriam as conseqüências”. Mas sair correndo com medo significava voltar à miséria do trabalho escravo ou sub-remunerado para a maioria das famílias. Resolveram ficar e resistir.

E resistiram por cinco anos, morando como favelados, preferindo esquecer as ameaças, até que conseguissem as terras – durasse o tempo que fosse.

Numa sexta-feira (bem a calhar, não?), 28 de outubro de 2005, receberam do Incra o documento de Imissão de posse (a posse efetiva daquela terra tão esperada). A festa varou a madrugada, e se estendeu sábado adentro, e emendaria pelo domingo, se Seu Antônio, maior liderança do acampamento, não resolvesse sair pra comprar cigarro.

Ele foi sozinho, feliz da vida, comprou um derby vermelho, comentou com o atendente a razão daquela felicidade explícia, virou as costas e rumou de volta pra Maiada dos Cavalos.

Quando já ouvia o barulho dos amigos na festa, a 500 metros do acampamento, Seu Antônio deu de cara com a concretização da ameaça do latifúndio. Não se sabe quantos foram os pagadores de promessa alheia, mas é notória a vontade de fazer Seu Antônio se arrepender muito, antes de morrer.

Segundo o IML, o camponês levou uma surra de mão, madeira e faca, ficou todo lanhado, com talhos por toda parte do corpo. Depois, 14 facadas espalhadas entre a cabeça e a barriga asseguraram que aquele lutador não ia mais desafiar os donos do poder não-institucional no Agreste pernambucano.

O que eles não sabem é que a gente, lutador do povo, é um tipo diferente de humano. Quando um de nós vai embora, as melhores características de combate de quem se vai ficam cravadas na alma militante. Cumprir a tarefa de cada companheiro que parte é uma certeza a mais cravada no fundo dos olhos e do coração de quem fica.

O cadáver de Seu Antônio foi enterrado, mas a luta dele sobrevive ainda mais forte na convicção de cada um de nós.

Algum dia enterraremos o próprio latifúndio, e a terra-cobertor de tal aberração há de ser a mais fértil já tocada pelas mãos neste país - nela vai germinar o futuro.

28.10.05
 
Porque estou do lado de cá
Ontem um agricultor de 47 anos morreu de estafa após colher 25 toneladas de cana de açúcar, no interior de São Paulo. Semana passada, saiu um relatório de direitos humanos (não lembro onde, mas li na Folha de São Paulo) que indicava que as crianças que trabalham na cana de açúcar, lá, colhem 15 toneladas de cana por dia.

Os agricultores de cana de açúcar de Pernambuco (organizados na FETAPE) estão realizando a segunda maior greve da sua história. Para furar a greve, os usineiros contratam trabalhadores em outros estados, prendem grevistas dentro do engenho (e chamam a polícia pra denunciar "invasão de propriedade") e usam PMs como segurança particular para os treminhões. O Jornal do Commercio cobre a greve por seis dias. A Folha está proibida de cobrir, até pq seu dono é usineiro. O DP não cobriu (dizem que pq levaram o furo e não querem dar razão ao JC). Ontem o JC cedeu à pressão dos outros e parou de cobrir a greve - que continua e se intensifica.

Ontem, 40 famílias de agricultores rurais sem terra foram cercados na casa grande da fazenda Santo Antônio, em Altinho (aqui no agreste). O cerco foi realizado por pistoleiros. Se não eram de algum grupo extremista de direita, devem ter sido contratados pela dona das terras. O cerco começou no fim da tarde, quando os criminosos entraram no acampamento atirando, deixando como únioca alternativa pro povo entrar na casa-grande. Eu soube do acontecimento à noite. Ligamos pra polícia e pra imprensa daqui. De manhã, depois de terem passado a madrugada inteira acordados debaixo de bala, os sem terra foram libertados por outros sem terra, que foram pro lugar em três carros e fizeram uma algazarra tamanha, dando cavalos de pau e partindo pra cima (com o carro) dos pistoleiros, que dispersaram o cerco. Os criminosos correram e meia hora depois a polícia chegou. A imprensa não foi. Oficialmente o cerco não existiu.

Ontem no fim da tarde, Hamilton da Silva, 34 anos, conhecido como Nenê, liderança estadual do MLST, foi assassinado. Ele estava num posto de gasolina, na cidade de Itaíba, quando dois homens numa moto dispararam 10 tiros no rosto dele. Um mês atrás, ele avisou ao Ministério Público que vinha sofrendo constantes ameaças de morte, por parte dos fazendeiros da região. Nada foi feito. Não há suspeitos.

Ontem, um desembargador do TRF da 5ª Região suspendeu uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que determinava a imissão de posse do engenho Prado às 300 famílias de sem terra acampadas lá desde 1998. Em 2003, grupos de pistoleiros atormentaram aquelas famílais, e a PM destruiu com tratores toda a lavoura que os acampados haviam plantado para comer, além de todos os barracos e mesmo a escola construída no lugar pelos sem terra. A terra foi conmsiderada improdutiva anos atrás, mas nem isso impediu a ação da polícia, que somente cumpriu um mandato judicial do TJ. A partir de hoje, ao que parece, decisões do Supremo (que antes eram indiscutíveis) podem ser suspensas por tribunais "menores", como é o caso do Tribunal Regional do tal desembargador.

Ontem, 180 trabalhadores rurais sem terra de todo o Estado começaram a segunda etapa do EJA médio promovido pelo MST. Eles passarão as próximas semanas estudando pra receberem um diploma do ensino médio. Os 180 se dividiram em grupos setoriais. cada dia, um grupo lava os pratos, outro varre as dependências do lugar, outro prepara a mística do dia, outro prepara a noite cultural. A maioria era analfabeto até entrarem no movimento.
25.10.05
 
Wilma só não mata em Cuba!
Na sequência de furacões que Deus tem lançado contra o império, um errou a mira e foi bater no México. Tinha que ser Wilma, a mulher idiota do estúpido Fred Flintstone.

E por lá foi uma confusão que matou uma dezena de pessoas e espantou os turistas de volta pra casa. Cansada, Wilma se enfraqueceu, corrigiu o rumo e voou mar do caribe acima. Ganhou força justamente quando tinha uma Cuba no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma Cuba. Fez-se a desgraça e hoje eu vi um monte de cubanos tomando banho numa piscina imensa, que até anteontem eles chamavam "avenida dem Malecon", no Centro de Havana.

Depois de um rum havana, Wilma foi de olhos trocados pra riba dos estates, mas parou pra vomitar três vezes. Chegou ontem em Miami, e antes da disneyword matou quatro - pra começar. Dizem que a ressaca da mulher do Fred deve continuar alguns dias - te cuida, Glória Perez.

Curioso nisso tudo é que em Cuba Wilma não matou ninguém. Durante a sua passagem, um acidente entre ônibus que retiravam as pessoas das áreas de risco matou quatro - não foi a Wilma, foi algum barbeiro ou militante anti-castrista.

Na verdade, o fato "curioso" desperta pruma questão muito orgânica e (também "curiosamente") fora das pautas de quem fala da terra de José Martí.

Quando alguém fala ou ouve falar do socialismo cubano (ou do socialismo em geral) fala no campo da economia ou da estrutura social estatizada e esquece o principal. A Revolução Socialista não se trata da mudança de mãos dos meios de produção, nem da distribuição igualitária das riquezas. É muito mais profundo e simples que isso: a revolução marxista é o chamamento do humano ao fato de que seus atos repercurtem em todo o resto da humanidade. Como disse um senhor no Boulevard Saint Michel, em Paris, em maio de 68: se trata do homem se colocar como sujeito consciente de suas responsabilidades e possibilidades.

Digo isso pra mostrar, com uma sequência infantil de causa-consequência, que a TPM de Wilma não matou ninguém em Cuba porque os cubanos têm uma noção grande da responsabilidade de cada indivíduo na vida coletiva.

Num país capitalista, a primeira coisa que as pessoas pensam, quando vem uma desgraça dessas é: Deus, minhas posses! Aí corre pra tentar salvar o carro, a mobília, os pertences, a própria pele, os parentes próximos, os distantes, os amigos do peito, os vizinhos... No meio disso tudo, o furacão já chegou e sacudiou tudo e todos pro ar. cansamos de ver imagens, semana após semana, de americanos em Miami martelando as paredes de suas próprias casas com madeirite ou fosse lá o que fosse aquilo. Confiam na "defesa civil" pra salvar os menos favorecidos e pronto. E Jeb Bush aparece na TV pedindo quie cada cidadão pegue seu carro e saia da cidade pela rodovia sei-lá-qual... Tá, e quem não tem carro?

Foram semanas de preparativos, pra danada da Wilma vir e no primeiro dia matar 4.

Em Cuba, não havia aviso de que viria furacão. Primeiro, disseram que passaria longe, depois, que passaria perto, mas não tocaroa... Apenas quatro dias antes é que houve o aviso.

Mas em Cuba cada cidadão é um membro da defesa civil. Em Cuba, primeiro salvam-se as vidas, sejam de quem forem. Em seguida pensa-se em como evitar grandes estragos materiais. Mas importante é o fato de em Cuba a riqueza e a pobreza serem divididas por todos, as desgraças sociais serem a desgraça individual de cada cidadão. Por isso Cuba passa fome. Passa fome por igual. Como Che dizia: se só há sabonete pra havana e não houver como dividir pra toda Cuba, Havana também ficará sem sabonetes.

Isso é sentimento claro de vida em sociedade.

Mas obviamente Cuba é um país pobre do terceiro mundo. Por isso, é muito mais clara a pobreza da Ilha. Se Fidel fosse presidente da Suécia, teríamos o socialismo num país rico. Mas não temos.

Dois dias antes da Wilma passar por Cuba, quase 500 mil pessoas foram afastadas das áreas de risco. E hoje podem tomar banho numa piscinona imensa chamada "Malecon".

Cuba tem problemas, mas ninguém morre de fome naquele país.

O maior problema de Cuba me parece ser parte do maior problema da União Soviética, que é a vigência do dinheiro como mediador social. O dinheiro é o câncer da humanidade - em Cuba, como no resto do mundo, deve ser mortal.
24.10.05
 
Se o NÃO ganhou, que se democratize o acesso às armas de fogo
Como desde sempre, a turma das armas massacrou. A gracinha do trocadilho histórico tem cabimento, mas com o próximo texto, no qual vou tratar da constante vitória da violência sobre o pensamento. Hoje, trato somente do referendo de ontem.

Ganhou o NÃO, e ganhou na boa. Foi muito mais inteligente na estratégia do processo eleitoral e assegurou votos suficientes pra comemorar com várias salvas de tiros. Venceu o NÃO como os políticos têm vencido as eleições: independente do conteúdo concreto da candidatura, o importante é ter uma boa estratégia de venda do produto, tocar o coração das pessoas...

Mas aqui também não cabe choro de perdedor. Também eu queria que o SIM tivesse adotado uma estratégia que tocasse o coração das pessoas e mostrasse como é importante se desarmar - e se o SIM ganhasse, um NÃO derrotado diria que o SIM ganhou como produto.

Isso porque a política foi vencida pela economia. Não só no sentido macro de que quem gerencia os países são os contratos internacionais, mas no sentido mais perigoso, que é o ideológico. As pessoas desistiram de pensar nas consequências dos seus atos (e já pensaram, algum dia?) e tudo o que desejam, agora, é alguma lógica que justifique um ato imediato que gere uma solução imediatista den problemas estruturais. O NÃO vencedor é a vitória da lógica do imediatismo, da solução pontual de um problema estrutural, que somente cresce com a continuidade do comércio legal de armas de fogo e munição.

Mas repito que isto não é pra ser um lamento de perdedor - sendo rubro-negro, neste ano de centenário, já lamentei o suficiente por uma década de derrotas. É uma proposta de correção de rumo. Sim, porque pra cada "solução" pontual que a nossa sociedade elege, temos uma cadeia de problemas estruturais que se amplifica, gerando mais e mais "soluções" pontuais, cada vez mais superficiais e problemáticas.

Está claro que foi um erro colocar em prática o Estatuto do Desarmamento antes do Referendo. Claro. O Estatuto só tem lógica ou legitimidade com o desarmamento, não? Então, agora temos que correr pra refazer o Estatuto, sendo ele agora "do Armamento".

Parece piada, mas é muito sério. Do modo que está, somente os "cidadãos de bens" podem exercer seu "direito de defesa". O "cidadão de bem" pouco endinheirado vai ter que comprar facas, pés de cabras, ou continuar comprando trezoitões velhos na feira do troca - e deixar, imediatamente, de ser tido por "de bem" aos olhos da Lei.

É fundamental que se democratize o acesso às armas, senão estaremos armando legalmente a classe média e os ricos e jogando todo o pobretariado na ilegalidade ou na insegurança reconhecida (já que 65% dos brasileiros que foram votar acham que só se está seguro, no Brasil, com uma arma de fogo). Este mesmo percentual de brasileiros precisa exigir o acesso democratizado às armas de fogo - e, por conseguinte, à segurança mediante defesa pessoal.

Eu, por exemplo, estou pensando em comprar uma arma. Pouca gente "de bem" é tão pacífica (apesar do passado de brutamontes juvenil) quanto eu, mas já que se decidiu pelo porte de arma como solução para a violência, quero a escopeta do meu pai de volta! Eu achava ela tão linda...

Tou falando sério: é imprescindível se modificar o Estatuto do Desarmamento pra garantir um acesso às armas de fogo democrático e com o menor corte de classe possível. Não é só quem tem dinheiro pra comprar arma legal que corre perigo. Aliás, as estatísticas mostram bem ao contrário: as maiores vítimas de armas de fogo estão entre os que não terão cinco mil reais pra comprar uma revolverzinho legalmente. No mais, repito que um direito que só pode ser exercido por uma classe social, deixa de ser "direito" pra ser "privilégio".
6.10.05
 
Referendo fuderoso do créu!
Independente do resultado da votação, o Brasil sai um tanto melhor do Referendo. Obviamente é pontual, mas já quebrou a escrita do "não é comigo" de todas as camadas da população. O debate está na boca das pessoas - e com muito mais grau de "política" do que nas eleições. Se tiver real intenção de trazer o povo pra política (e contribuir com a formação da consciência), o Governo usa o sucesso de público deste referendo pra desencadear um processo de participação popular na base de referendos e plebiscitos, como já faz há alguns anos o graaaaaaaande Hugo Chavez - e com bons resultados na elevação do nível de consciência e participação do povo-irmão venezuelano.

Mas, como é apenas a primeira experiência em muitos anos (desde o plebiscito de 1992 - que, aliás, conseguiu bem menos participação popular que agora), existem defeitos graves. O maior deles, na minha visão, é o corte de classe da discussão. É obviamente resultado da conformação interna das "frentes parlamentares", mas tem como resultado prático uma discussão em torno de benefícios e malefícios para as classes médias e alta. O povo pobre, mais uma vez, não existe no debate - senão como massa a ser convencida por argumentos que, na real, não o dizem respeito.

Fala-se de "cidadão", mas o corte de classe é claro quando todo mundo sabe que pobre não compra arma legal. Pra comprar uma arma legalmente, o sujeito tem que ter o valor da arma, mais cerca de R$ 2.500 pra pagar as licenças, mais nem sei quanto pra fazer cursos de tiro e ter capacitação pra usar a caladora de boca. Quem pode fazer isso? Muitas vezes o pobre precisa, sim, ter uma arma em casa, por conta de uma vizinhança cuja lei vigente é a da bala. Mas a arma que este cidadão possui, hj, é ilegal, já. Ele não foi numa loja comprar, nem tirou licença pra uso. Ele foi na feira do troca, ali em Peixinhos, e vai continuar fazendo isso (ele e o bandido que mora ao lado) até que a fonte da feira do troca secar, independente do resultado do referendo - mas só o "SIM" facilita a "secagem" da fonte.

Por quê? Porque a tal fonte é o comércio legal de armas. Pode conter o grito de "não, é o tráfico", que quem tem dinheiro pra traficar armas é o crime organizado, e o crime organizado é traço no ibope da nossa criminalidade. O bojo dela é composto por criminosos de ocasião despreparados que não tem dinheiro nem canal pra ter uma uzi. O trezoitão dos nossos criminosos foi comprado na mesma feira do troca que a do vizinho "cidadão honesto" dele.

Tenho um história parecida com a que alguns de vocês devem conhecer: meu pai tinha uma escopeta. Cabra macho do Pajeú, seu Cleonaldo, apesar de pacifista, aprendeu que homem tem arma. Depois ele decidiu que já era homem sozinho, não carecia da escopeta (que eu achava linda) e deu a danada pra minha vó - cuja casa havia sido assaltada duas vezes. Dona Conceição, tabirense tinhosa, dormia com a bichinha do lado, qual urso de pelúcia, até o dia em que resolveu transformar a dita em dinheiro. E vendeu prum conhecido, anos atrás, e hj não tem a menor idéia de onde esteja, mas deve ter passado pela feira do troca. Quem quiser que vá em peixinhos - você já sai de lá armado.

Fora as armas que a classe média compra de forma "correta" e depois vende no comércio informal (sem sequer se tocar que pode estar alimentando a criminalidade), existem as armas que os policiais vendem. E vendem, mesmo, vamos deixar de hipocrisia. Quem nunca ouviu falar de um revolver baratinho que um puliça tá querendo vender pra pagar uma cirurgia de um filho, e tals? E quem nunca ouviu falar nos verdadeiros carregamentos que certo xerifão cacifado pernambucano traz e revende, sempre que volta de viagens? O "cidadão honesto" que vai estar dentro da lei, caso o "NÃO" vença, é o de classe média e alta, porque o pobre vai continuar na ilegalidade.

Este é um dos principais pontos que me fazem votar no "SIM": ele significa uma equalização das possibilidades de exercício dos direitos, um passo prum novo modelo de Estado que se responsabilize pela possibilidade do usufruto do direito pelos seus cidadão. Que direito é esse que você só exerce se tiver dinheiro? Quer dizer que apenas ricos têm direito à defesa pessoal? Enquanto os ricos tiverem tal direito, vão empurrando uma real reforma em todo o sistema de segurança pública com a pança larga de burguês.

"SIM" e "NÃO" são opções apenas para as classes de poder aquisitivo de classe média pra cima. Pros debaixo, tanto faz "SIM" ou "NÃO". Votando "SIM" eu tento deixar as classes mais altas sujeitas aos mesmos perigos aos quais as classes baixas já estão submetidas historicamente. E voto "SIM" por saber que quando o calo aperta nos nike, as coisas começam a mudar.

Meu voto "SIM" não é em defesa do desarmamento: é em defesa de um Estado em que direitos sejam para todos - e se não forem direitos pra todos, que não sejam pra ninguém; é uma tentativa de forçar a vontade política das elites na direção de uma política efetiva de segurança pública - que, obviamente, transcende a repressão e passa obrigatoriamente pela formação e pelo crescimento de atendimento concreto dos pobres pelo Estado.

Mas nem sei se o SIM ganha. O debate travado é o errado, e nem acho que nosso povo está preparado pro "certo". O povo pobre aprende desde cedo que tem que obedecer à logica das classes mais altas, e pensa realmente que "direito de defesa" se aplica a ele, também.

Viva o Referendo! Viva a democracia participativa! Vote SIM!

30.9.05
 
E Lula, quem diria, se recompõe...
De cara, explico que não acredito neste governo como alternativa de transformação social. Pronto, agora posso fazer a análise seguinte:

Não conheço, no Brasil, exemplo maior de genialidade política do que Lula. Há inúmeros que dominam a arte da política, aprenderam a lidar com seus mecanismos e os utilizam como um pintor usa composições, cores e formas. Mas Lula é diferente, porque tem a ardilosidade dos "naturais". FHC é Malmsteem (é assim que se escreve?); Lula é Hendrix.

E o danado tem ateado fogo na guitarra, tocado com os dentes, entortado o braço da bendita e brincado de microfonia. Tudo sob o intuito de desviar a atenção de uma banda cujos instrumentos desafinaram e mesmo das letras medíocres que produz. A platéia baba e a mídia enquadra em close os malabarismos do "gênio", deixando de lado furiosos críticos que, histéricos, apontam pro baixista medíocre, pro baterista descompassado, pro assistencialismo do ingresso gratuito, pro repertório lastimável.

A oposição tende a ficar histérica, mas a verdade é que Lula retomou o comando político do seu Governo. Como gênio, cometeu o erro crasso de deixar toda a operacionalidade da banda nas mãos de um produtor genial, mas que - pela amizade pessoal com o "astro" - não soube controlar seu stalinismo nem sua vaidade. Embriagado com a guitarra na mão, Lula só queria fazer um som, que Dirceu cuidasse de todo o resto. Como já entrou pra história do Brasil, todo o resto desabou.

Lula caiu de joelhos, perdeu o tom, chorou no palco, mas fez disso espetáculo até conseguir se recompor e conduzir todo o processo de retomada do sucesso - aparentemente sozinho. E me parece que ele está no caminho certo (pras intenções dele). E aqui vai o novo repértório do nosso Hendrix:

1- Centralidade das ações na figura dele. Não sou irresponsável o suficiente pra afirmar que toda a corrupção não chegou na pessoa do presidente por esperteza na feitura do esquema. Aliás, o esquema foi tudo, menos esperto. Acontece que, apesar dos Ibopes da vida, Lula ainda goza de credibilidade junto à população mais pobre, e tem feito o caminho exato entre a sujeira pra ser re-alçado ao posto de ídolo. Reparem que nenhum ministro fala mais à imprensa - ao menos não as coisas mais importantes. E reparem na quantidade de investimentos em infra-estrutura e boas notícias na economia que o presidente em pessoa tem feito questão de anunciar.

2- Foco no Nordeste. Aqui é onde Lula mais tem preservado seus índices de popularidade - e onde "a pobreza habita", segundo a idiotice da crendice popular. Somente esta semana, Lula já anunciou a refinaria pra Pernambuco, a duplicação da BR 101 entre Alagoas e a Paraíba, além de uma série de investimentos na região. Com isso, ele vai ter discurso, ano que vem, pra dizer que fez opção pelos pobres. E como nossa região tem sido abandonada há séculos, vai ter melhorias concretas pra mostrar no guia eleitoral.

3- Desvio de foco. Alguém aí acha mesmo mais importante a investigação de uma "Mafia do apito" (que movimentou menos de um milão) que as três CPIs que apuram um escândalo do mensalão e do Valerioduto (cujas cifras ainda não conhecemos, mas ultrapassa o meio bilhão)? Desde quando tal "máfia do apito" foi "desmontada" (e foi?) pela Polícia Federal, a apuração sobre o Governo Lula caiu em banho-maria, deixando a oposição histérica, mas gritando pro ôco. Faz bem uma semana que não vejo na Globo a cara do (crápula do) ACM Neto. E ontem vi o "pedala robinho" do corintiano no tal juiz sete vezes, em todos os noticiários da Globo, enquanto a confirmação de que o valerioduto vem de empresas privadas (e não de "inocentes" empréstimos bancários) ganhou apenas uma nota lida - e no Jornal da Globo! As CPIs se encerram nas próximas semanas, não atingem Lula, e os brasileiros agora têm uma preocupação maior, que é com o futebol, claro...

4- Recomposição da base parlamentar. A eleição de Aldo Rebelo foi uma vitória pessoal de Lula. E a vitória começou com a escolha de um não-petista (e sem gritos indignados de pré-candidatos petistas) para a disputa com Thomás Nonô. Nâo cabe na minha avaliação julgar os métodos utilizados, pq já coloquei que não vejo este governo como de transformação. Os métodos não foram diferentes da prática republicana brasileira. Interessa que a base aliada estava totalmente destruída, a oposição estava crente que venceria (quem viu a comemoração oposicionista pelo empate no primeiro turno da votação sabe do que tou falando) e levou um tombo feio, e saiu humilhada, chorando pelos cantos, buscando um holofote pra gritar, de olhos vermelhos, em rede nacional que a vitória foi "vergonhosa" e que a derrota "teve sabor de vitória" (me poupe, pêfêlê...). E, notícia fresquinha, Lula tava pra perder Delcídio Amaral pro PSDB, mas o ganhou de volta, convidando-o pra ser candidato ao governo do Mato Grosso do Sul pelo PT no ano que vem. A CPI dos Correios iria ter um presidente tucano, e agora vai ter um petista avalizado pelo presidente pra ser governador de um estado...

5- Recomposição da base midiática. Caminmha passo a passo para blindar cada o governo dos ataques que víamos duas semanas atrás. Comentaristas "consagrados" tem caído na armadilha lulística da agenda positiva, do mensalinho de Severino, da eleição na Câmara, do crescimento da economia, do abraço em Zé Rainha, do encontro com Chávez... FHC sobrevivou oito anos a CPIs dando outros brinquedos pra mídia se distrair. Lula, agora, faz o mesmo. Um sintoma claro disso é o desespero da mídia antipetista, como o primeiraleitura. O serrista Reinaldo Azevedo está espumando, mas seu front não tem um mínimo de credibilidade quando o assunto é equilíbrio de crítica. Aqui em Pernambuco, o despreparado do Magno Martins rosna todo dia que o governo acabou, que Lula está morto, que isso, que aquilo. No caso dele é muito mais despreparo que oposicionismo. Ele nunca consegue pegar o bonde da notícia. Fala do que lhe mandam e requenta com tiradinhas adolescentes assuntos que já esfriaram.

Vamos esperar a virada do ano. Mas hoje tenho a impressão de que Lula chega bem municiado pra disputar a reeleição. Nada comparado ao que seria caso o valerioduto não tivesse sido exposto, mas muito melhor do que todo mundo previa duas semanas atrás.

Goste ou não (e eu não gosto), Lula é um gênio da política (talvez o maior já nascido no Brasil). Não da boa política - mas da política cujo fim em-si é a tomada e manutenção do poder, não da transformação da sociedade.

Ele segue seu showzinho e prepara a banda prum revival dos melhores momentos no palco.

Isso é bom?

Vai saber...

23.9.05
 
Voltar pra Pernambuco foi voltar pra casa - voltar pro sertão foi subir de novo no pé de goiaba do quintal abandonado pelo cotidiano.

Fui pro sertão na segunda-feira. Hoje tou em Caruaru, mas não saí - nem pretendo - de lá.

Com a notícia de uma tarefa no semi-árido, meu coração deitou numa rede velha e empurrou a parede com o pé, e sentiu a vertigem do baque que não acontece e mesmo o rangido do gancho gasto na parede.

Eu fui pra Petrolândia, e nem o mar que inundou a velha cidade (deixando só a torre da igreja de fora e um estranho "nova" na frente do nome do lugar) venceu o sertão, ali. Nada vence o sertão.

E eu fui recebido como se recebe as coisas que nunca se foram. Mentira - fui recebido como filho pródigo, como Lucca recebeu o pai pródigo, em agosto.

O encantamento começou na estrada. A estrada te abraça dentro do carro e forma uma linha entre os olhos que só termina quando vira um ponto engolido pelo céu. E o céu do Sertão começa quando se olha pra frente, porque Sertão não é paisagem, é lugar. E lugar tinhoso, que desafia a couraça, a coragem e até as vistas do passante.

O lugar-sertão só acaba pros olhos quando os olhos não chegam mais. Uma ou outra serra aliviam a peleja, mas é só piedade.

A mesma piedade o Sertão não tem de couro de gente. O sol de cima e o barro de baixo causam a sensação de queimor da própria alma. Ninguém é imune ao lugar-sertão, porque ele queima, mesmo, e marca a alma, e deixa uma saudade cravada nela. Porque Sertão não é quente, é gente - e o calor vem do seu abraço.

O sol do Sertão não é essa brasa desforme que alumia o litoral. No Sertão o sol é uma bola bem definida, que muda de cor conforme deseja, mas acorda e vai deitar vermela, com chamas-bailarinas que convidam as vistas pra peleja mais linda que elas possam topar.

E ele nasce logo cedo, que a terra-sertão tem pressa pra se cultivar. Antes das cinco a lua amarela perde o reinado e o globo vermelho clareia cada canto do lugar. E sobe pesado, até meio-dia, mudando de cor e de temperatura. O que era fogo brando e brisa noturna, pela manhã, sopra lava nas ventas do barro amarelo, que o sol (já amarelo) esquentou com a subida.

No topo do firmamento, ele descansa e não quer mais saber. Dá uma, dá duas, encosta o ponteiro do relógio nas três horas, e ele tá lá, amarelo e fogoso, em riba de cada quengo de riba do chão. Mas aí escorrega, já bem descansado, mudando de cor e de queimação. Às quatro é laranja, às cinco vermelho, e antes das seis se deita redondo e arrodeado pelas bailarinas-labaredas que o chamam pra cama. Mas antes de sumir do lugar-sertão, o sol amostrado pinta o céu com tantas cores quantas a gente possa notar. E a dança das labaredas reflete no firmamento, quase um rabo de cometa, que só vai embora quando a lua, zangada, varre de breu o que não é chão - e tendo lua, só o que não é chão.

Pois passando de Tacaratu, subi uma serra que nem conhecia, e eram cinco e trinta e seis da tarde quando cabou-se a subida e começou o deslumbre. De cima da serra, o mar do Seu Chico recebia o sol e suas bailarinas prum banho. E o céu ía junto, nesse movimento. E eu - filho pródigo - de cima da serra, estendi minha alma e pedi (como não fazia havia dez anos) abença, meu pai. E o sol, lembrando seu Turiba (o meu avô-sertão), responde em galhofa, enquanto mergulha: "deus te abençôe, cabeça de boi".

O sol rio adentro e eu leve por dentro, abençoado e de novo - de novo - em casa.

8.9.05
 
A defesa do canalha moderno
Faz parte de um email que uma amiga minha me mandou:

"Frases como 'to com saudade da sua cama', 'quero beber o seu suor' me excitam, adoro ouví-las. Já frases como 'se eu tivesse uma máquina e colocasse todas as qualidades que quero numa mulher, seu nome sairia do outro lado', me irritam. Quase me insultam, na verdade. Não sou uma menina, sou uma mulher. Não quero ilusões românticas, prefiro desejos sinceros..."

para Diana de Moura Barbosa
5.9.05
 
A mídia, em sua melhor forma, é uma tentativa de mediação social, um dinâmico manual de boas maneiras, uma ética como estética do comportamento social. Em sua pior forma, cedeu à ética da dominação, tornou-se relações públicas de um modo de vida que destrói a vida no planeta e no humano dagente. E quanto eu escapo de ser-lhe um humilde servo arisco?
26.8.05
 
licença a Carlos Pena Filho
Moro na cidade onde o mar é uma montanha, onde a linha do horizonte se dobra, porque acabou a tinta do criador, e ele teve que improvisar, tamanho o horizonte do mar pernambucano.

E em cima do mar tem um céu de nuvens gordas e azuis. Uma cordilheira de vapor sobre a montanha dágua. E um céu azul raivoso, que vezes no dia cobre toda a cara do cima e cega os olhos de baixo.

Ainda nem sabia o que era o alcool, quando conheci a madrugada. É quando o céu se exibe mais majestoso. Quando a montanha dágua e a cordilheira de vapor são uma coisa só, ás nossas vistas, e o céu começa só depois, acidentado, tentando levantar o sol.

A véspera da aurora no recife é o suspiro da boca que se abre pro beijo mais desejado, o hálito morno da comida já no garfo, o rastro interminável dos dedos pela virilha. Eu vivia, toda madrugada da minha primeira adolescência, meia hora de espetáculo pela janela do Rio Doce/Piedade.

Depois - já teído e manteído pela fogosa noite - tornou-se vicio. Mas nem sabia do objeto do meu vício. Até esta manhã, na verdade, pensava ser apaixonado pelo colo denso da noite - e não sou?

Até esta manhã.

Voltando pra casa do Garagem, de lado do rio Capibaribe, estava de volta àquela primeira adolescência. Eu nunca saí dali, da janela do Rio Doce/Piedade. Eu nunca deixei de catar fragmentos do azul que traz o sol, a cada noite.

Tudo fez sentido.

Os anos de madrugadas gordas sem uma gota de alcool nem naco de droga alguma. Eu estava ali pelo céu que viria, certo e único, acordar todo o Recife.

Sempre foi tão óbvio, que hoje moro na Rua da Aurora.
22.8.05
 
alternativas viáveis?
Já é comentário comum na pequena-burguesia-de-esquerda: "sei que o capitalismo é uma merda, mas nenhuma alternativa de modelo proposta se mostrou eficaz, e agora não temos mais alternativa organizada".

Quando me foi feito ontem, respondi o que acho bem óbvio: "A alternativa é organizar o povo; sem povo organizado, nunca houve alternativa real".

É troço pra mim tão óbvio, hoje em dia, que já respondo cansado, quase com certeza de estar falando ali com mais um hedonista que mal sente na pele o horrorshow do capitalismo, mas lamenta que outros sofram e, principalmente, lamenta quando a violência sistêmica bate à sua porta. No fim da conversa, ele pode até concordar 100% comigo, mas não vai mexer um dedo pra mudar a situação.

Como pequeno-burguês-de-esquerda, sempre militei entre pequenos-burgueses. Já havia algum tempo, cansara da velha política institucional (braço mais forte da esquerda burguesa) e estava na mesma deriva que levou tantos pra pós-modernidade apolítica ou pra social-democracia. Eu fui bater em Porto Alegre.

Fui em busca de caminho. Fui assentar as idéias, entender o mundo ao redor e dentro de mim, afogado em contradições. Fui resgatado nas margens do Guaíba, semi-morto. Era o povo. Era o povo se organizando (porque povo só é povo quando se organiza. Desorganizado é qualquer outra coisa, menos povo).

Lá descobri que, com todos os problemas e contradições inerentes a qualquer grupo que luta por mudar uma realidade sem poder sair do planeta Terra, o povo está se organizando por toda a América Latina. Mas, por enquanto, isso só interessa e toca o próprio povo em organização.

Bitolada por uma grande mídia passiva e alienada (quando não burguesa e alienante), tonta depois de cair da cama do PT, a pequena-burguesia-de-esquerda nem nota a diferença.

Mas não nota porque, também, finalmente o povo se organiza como povo, não como massa semi-politizada para partidos ou intelectuais pequenos-burgueses de esquerda. Não nota porque política, pra nós, pequenos-burgueses-de-esquerda, se resume a disputa eleitoral - e o povo já desistiu dessa simplificação cômoda pros incluídos e inútil pro resto.

Em meados dos anos 90 o povo começou um afastamento gradual da institucionalidade eleitoral, por sentir na pele sua ineficácia. A tomada do PT por sua ala social-democrata reforçou o caráter meramente institucional do partido e o afastamento do povo organizados de suas bandeiras (depois, de suas hostes). O governo Lula aprofundou a cisão ao escantear pautas óbvias do povo, como a reforma agrária, a democracia participativa e as rádios comunitárias.

Estava claro desde meados de 2003, que este era um governo de esquerda social-democrata (e nem digo pelas práticas escrotas, mas pela pauta escrota).

A atual crise, ao invés de acelerar o processo de ruptura, colocou o povo organizado num desconfortável "lado" de Lula - na defesa mais da sobrevivência da esquerda no imaginário político institucional (ou seja, na sociedade) do que de Lula e do PT.

Desde o início, este governo se mostrou "conciliador de classes". O povo há séculos se arrepia e espera a lapada, quando escuta este termo. A esquerda social (que está ligada à organização do povo) foi praticamente limada da gestão e o governo tratou o povo organizado do mesmo jeito com que tr atou aliados no congresso: com mimos que não chegavam a ser uma política de Estado, mas ajudava a amainar as coisas.

No congresso, isso acabou em mensalão. Na sociedade, está com cara de que vai acabar em muitos e muitos mais adeptos da direita institucional ou do hedonismo apolítico. No povo, a exposição de toda a escrotice do esquema pode servir (deve, se estivermos atentos e dispostos) para dar impulso único à necessidade de organização, de desligamento das promessas eleitorais.


Mas só entende isso quem opta por estar atento e disposto a mudar as coisas - inclusive a nossa vida.
19.8.05
 
Revolução e barbárie
Eu sei que a sociedade é um desastre quando constato que, aos 27 anos, eu estou apenas saindo da adolescência. E meus amigos quase todos, e os amigos deles.

Bando de balzaquianos punheteiros.

O retardamento do amadurecimento notado mais ou menos a partir do advento global da indústria cultural é uma catástrofe histórica - uma civilização de irresponsáveis.

Não que não sejamos financeiramente responsáveis pelas nossas vidas (na maior parte das vezes somos, sim) - não suportamos é a idéia de assumir responsabilidades que nos prive do nosso hedonismo. De fato, é a negação da sociedade, o que construímos nos cento e poucos anos de sociedade moderna.

O curioso é que esta sociedade, filosoficamente estabelecida no iluminismo, deveria ser a busca pelo ideal de convivência humana racional e pacífica, mediada por pressupostos sociais. Na luta inescrupulosa por construir tal sociedade, erguemos um positivismo de fachada aético, que agora explode o mundo em revolução e barbárie.

Do cinismo da banalização (centralizada na indústria cultural) das contradições inerentes ao sistema - do tipo: quem determina os "pressupostos sociais?" - brotaria uma geração de retardados, que está no poder exatamente agora e já providenciou o retardamento compulsório e intensificado de mais gerações - como a nossa, balzaquianos punheteiros.

Simplesmente não nos responsabilizamos e a barbárie vem disso. A barbárie do mundo e do interior do ser são uma só, neste instante. A adolescência, historicamente, foi o período de iniciar-se, aos poucos, a assunsão de responsabilidades pessoais e sociais. Em algumas etnias indígenas, a infância é percebida claramente até os 14, 15 anos, e a idade adulta está estampada na cara de um índio de 15, 16 anos. A adolescência não é suprimida, mas dissolvida por toda a vida. Por isso, crianças indias assumem responsabilidades na tribo, e adultos brincam violentamente até a velhice.

Nós, da nova roma global, estamos suprimindo partes importantes da infãncia e da idade adulta, pra impôr a eterna adolescência. Por toda a vida, com sexualidade precoce e hedonismo perpétuo. O resultado pessoal e social da eterna adolescência é a desordem, a civilização de irresponsáveis. A barbárie, enfim.

A Revolução é a tentativa de chamamento à responsabilidade, ao amadurecimento.

O capitalismo retirou o mundo da idade das trevas, mas cegou quase todos durante o caminho para a luz.

Quantos acham a nossa sociedade um sucesso? E quanto de nós damos para ajeitar as coisas?
17.8.05
 
O chato impregnante
já se passaram 10 dias da minha chegada ao recife, e ainda não encontrei quase ninguém. tudo bem que eu tou tentando levar um estilo de vida menos pop, mas tá demais. Deixei meu celular aqui, deixei meu celular no orkut, mas absolutamente ninguém liga pra mim. Mas eu não tava nem aí, pq, afinal, eu me espalho, mesmo.

Eu não estava.

Até ir no festival do coquetel molotov e encontrar uma porrada de gente "amiga".

A certa altura, eu conversava com um brodagem meu, e ele dizia que às vezes esquecia o semblante das pessoas, e mal falava, e que era chato por isso. E eu falei, tentando dar uma força: "besteira, pô. Eu também sou um chato".

"Mas tu é um chato impregnante"

Caiu a ficha.

Caiu de maneira tão clara, que ele notou e perguntou se eu fiquei ofendido. Eu disse que não.

Eu realmente não fiquei ofendido. Mais do que a opinião dele (no que já seria legítimo), o que ele disse é a mais pura verdade.

Caiu a ficha, eu caí na real. Se eu já estava um tanto recolhido e quieto, desde quando cheguei, agora viro um hermitão.
12.8.05
 
o mesmo eu
deixei meu celular com todos os meus contatos telefônicos ali pertinho, no Espírito santo. Tou quase desesperado, esem conseguir ligar pros amigos. Por favor, me liguem: 81 99362822.

Mari, menina linda, liga pra mim imediatamente, já que até da internet tu sumiu.

semana que vem conto o resto da história dos puliça.
7.8.05
 
Diário de Bordo - reminiscências
Com cara de sono, escapando do sol do início da tarde na Estrada do Coco, litoral norte baiano, a galega rejeitou a ponta que a menina espevitada e solícita do banco de trás ofereceu. Eu não tinha sono - nem rejeito ponta. Mas era uma ponta de nada, do tipo que se perde na mão. E se perdeu entre meus dedos, e eu me perdi atrás dela, nem sei onde.

"Olha ali!", diz a galega do meu lado.
"A ponta?"
"Não, Galego, a polícia! Aí na frente!"

Eita porra, ainda mais essa! Bah! que merda! Freio, quarta, freio, terceira, freio, segunda, cruzem os dedos! ele não vai mandar parar. vai nada...

Mandou.

Mas que filho da puta!

A primeira vez em quase três mil quilômetros que me param, desde Porto Alegre. Para mim, a corrupção de todo o aparato policial nordestino começa na conivência do cidadão comum (e da própria polícia) com o toco, a propina nossa de cada blitz, o mensalinho da estrada, a ajuda pra cerveja. Cada pagador de toco é responsável direto pelo PM alfaiate do diabo que abotoou o paletó daquele menino que sai de vermelho todo dia na Folha.

Mas, enfim, parei cinquenta metros depois do posto policial, pra dar tempo dagente tudo se recompor, o cheiro ir embora e eu ver se tava tudo em ordem no carro.

Parecia tudo em oprdem quando o porco chegou com aquela velha conhecida cara de vampiro fardado comedor de toco - de quase todo policial de trânsito nordestino - e se posicionou para dar início ao cotidiano jogo "me corrompa, que tá limpeza".

"Habilitação e documento do veículo."

Eu tava pronto pra ganhar sem entrar em campo - ou pra chamar ele pro jogo "libera na boa, que eu tou correto": documentos na mão, claro, meu melhor sorriso na cara e os óculos (muito) escuros da galega protegendo minha vista da fotofobia.

Teve início o velho perrengue.

Tudo sempre começa, nesse jogo, quando o guarda leva os documentos pra trás do carro, por mode conferir a placa, ou o que quer que seja. Meu lance foi fingir que o movimento dele não era um convite. Parado estava, parado fiquei.

Pelo retrovisor, vejo ele olhando mais pra mim do que pra placa traseira. Não me movo. Ele cresce no pequeno espelhinho e, do meu lado, antes de me devolver os documentos, olha pras meninas e pro carro. Parecia tudo em ordem, e ele esticou a mão com minha habilitação. Abri o sorriso aliviado, mas tremi quando vi o brilho nos olhos do bravo policial baiano:

"A moça de trás está sem cinto. Vou ter que multar o senhor"

(amanhã ou depois eu continuo a história, não sem antes avisar desde já que o que aconteceu a seguir foi bizarro)
2.8.05
 
Caí na pauta da grande mídia...
Tá, estou quase envergonhado por ceder à pauta da grande mídia, mas vamo lá:

A questão sobre impeachment ou não do presidente Lula começa antes dessa palavra ser pronunciada - ela nasce na admissão/rechaçamento de culpa. Isso porque nem a direita "responsável" (setores majoritários nas cúpulas do PSDB e do PFL) nem a ex-querda (o PT no poder e sua claque) aceitam falar nessa palavra difícil de se escrever. Essa turminha do PSDB e do PT majoritários sempre foram muito parecidos, mesmo, alguém aí discorda?

Eles se diferem na hora de supôr o que as investigações ainda não mostraram (e vão mostrar?!): a culpabilidade do presidente da república.

A direita "responsável" justifica não querer o impeachment do mesmo jeito sem-vergonha com o qual justificaram tanto desgoverno durante oito anos de FHC: certas concessões devem ser feitas pra que a governabilidade seja assegurada. Mas eles aceitam não tocar na palavrinha que arrepia os biziu de Collor, desde que o presidente Lula venha a público, admita o tamanho do erro que foi o seu governo e proponha um "Pacto de travessia", garantindo que não vai se candidatar à reeleição.

Lindo, né?

A ex-querda também não topa lembrar da república das alagoas e, mais que isso, está numa de blindar o presidente Lula - e com a ajuda da Globo (mais teorias conspiratórias, bandeira?). O ponto defendido pela ex-querda é que o presidente Lula foi enganado - e parece que todos eles, porque ninguém sabe dizer qual foi exatamente o crime, mas se sabe que houve crime, e escabroso. Mas o presidente não sabia, não há provas concretas que o liguem ao crime (ocorrido na sua ante-sala, executado pelo seu histórico e inseparável braço DIREITO), e, além do mais, ele está tão indignado como o resto de nós, brasileiros, e quer que toda corrupção seja apurada...

Aí é quando se cai na gargalhada...

Tirando Bandeira e a direita sanguínea (que, ao contrário de Bandeira, não pensa), a maior parte da geral ainda acredita na inocência do presidente Lula ou quer mais provas de que ele está melado de merda - fora o cheiro que já se sente, estando no mesmo palanque ou no mesmo país que ele...

O caso é que não dá pra levar a sério a opinião da direita "responsável" - tampouco a da ex-querda. Tucanos e macielistas querem uma travessia onde Lula esteja anulado ( mas permaneça no cargo) porque é uma vitória certa em 2006 (caso o pacto deles seja aceito por Lula). Se não ocorre tal travessia e o governo quebra antes do fim do ano, o que acontece? Alencar assume. Não que seja grandes coisas, mas este governo fez tanta merda desnecessária, que o zé mineiro pode desmontar tudo em seis meses, e dar ao país uma sensação de melhora grande antes das eleições. Aí ele seria um forte candidato à reeleição - e um problema muito maior que o Lula enfraquecido.

A ex-querda esta mais afeita a pensamentos de curto-prazo, neste momento. Querem manter Lula longe das denúncias e perto do povo. Podem reparar no discurso do Presidente, nos últimos dias. Ele se diz perseguido e encrudeceu a retórica, voltando a parecer líder sindical falando de caçamba de caminhão. Na última curva, ele quer se segurar no povo - mas no povo desorganizado, que é mais fácil de ser manipulado. Lula quer distância dos movimentos sociais, temendo ser um novo Gutierrez - enquanto os movimentos sociais querem que ele seja o novo Chávez (grande Chávez!!! quem me dera...). Pior é que ele tentou ser o Vincent Fox e acaba de perceber que o cucaracha da coca-cola já se fudeu...

27.7.05
 
mais um salvador da pátria?
Assim como fez com Collor em 88, a Rede Globo lançou Artur Virgílio Neto como candidato à presidência da república, ontem à noite, no programa de Jô Soares.

Talvez inspirado no sucesso da novela américa, quem esteve sentadinho do lado do gordo foi um político modelo "partido democrata" (engomadinho, educado, inteligente e cheio de valores morais que a burguesia venera).

Curioso foi olhar praquele Al Gore tupiniquim e lembrar do enervado manauara que distribui agressões verbais a três por quatro no cotidiano. Virgílio deve ter sido treinado pela Glória Perez em pessoa.

A entrevista começou com uma pergunta familiar (que num só tempo humanizou o candidato e mostrou sua estirpe - o filho de Artur Virgílio Neto se chama "Artur Virgílio Bisneto"). Em seguida, o cara deitou a falar de seus valores morais e suas qualidades políticas, numa masturbação em rede nacional. A "EUlegia" foi tamanha que começou a incomodar o não menos ególatra Jô.

E o gordo mudou de assunto, partindo pra política. Aí foi um espetáculo do mais afinado proselitismo sobre moralidade com a coisa pública, ética na política e decência no governar (obviamente três pilares dos oito anos de governo tucano no Brasil, não?).

A desmemoriada platéia ficou encantada. Num momento mais exaltado, um idiota não se conteve: "presidente!".

No meio daquele circo armado, o palhaço-apresentador ficou constrangido com a descoberta precoce da intenção da entrevista e pediu decoro à platéia.

Mas já era tarde.

Serra tomou no cu, Alkmin se fudeu, FHC já era - o candidato da Globo é Artur Virgílio Neto.

Powered by Blogger